Palestra
apresentada no Rotary Club de Castelo Branco, em 3 de Setembro de 2002, pelo Dr.
Vitor Toscano, Professor de Filosofia na Escola Secundária Nuno Álvares de
Castelo Branco
Parábola do semeador
1 No mesmo dia, tendo Jesus saído de casa, sentou-se à beira do mar;
2 e reuniram-se a ele grandes multidões, de modo que entrou num barco, e
se sentou; e todo o povo estava em pé na praia.
3 E falou-lhes muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador
saiu a semear.
4
e quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as
aves e comeram.
5
E outra parte caiu em lugares pedregosos, onde não havia muita terra: e logo
nasceu, porque não tinha terra profunda;
6
mas, saindo o sol, queimou-se e, por não ter raiz, secou-se.
7
E outra caiu entre espinhos; e os espinhos cresceram e a sufocaram.
8
Mas outra caiu em boa terra, e dava fruto, um a cem, outro a sessenta e outro a
trinta por um.
9
Quem tem ouvidos, ouça.
10
E chegando-se a ele os discípulos, perguntaram-Ihe: Por que Ihes falas por parábolas?
11
Respondeu-lhes Jesus: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos
céus, mas a eles
não
Ihes é dado;
12
pois ao que tem, dar-se-Ihe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até
aquilo que tem lhe será tirado.
13
Por isso Ihes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e ouvindo, não
ouvem nem entendem.
14
E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, e de
maneira alguma entendereis; e, vendo, vereis, e de maneira alguma percebereis.
15
Porque o coração deste povo se endureceu, e com os ouvidos ouviram tardamente,
e fecharam os olhos, para que não vejam com os olhos, nem ouçam com os
ouvidos, nem entendam com o coração, nem se convertam, e eu os cure.
16
Mas bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque
ouvem.
17
Pois, em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que
vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram.
18
Ouvi, pois, vós a parábola do semeador.
19
A todo o que ouve a palavra do reino e não a entende, vem o Maligno e arrebata
o que lhe foi semeado no coração;
este é o que foi semeado à beira do caminho.
20
E o que foi semeado nos lugares pedregosos, este é o que ouve a palavra, e logo
a recebe com alegria;
21
mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e sobrevindo a angústia
e a perseguição por causa da palavra, logo se escandaliza.
22
E o que foi semeado entre os espinhos, este é o que ouve a palavra; mas os
cuidados deste mundo e a sedução das riquezas sufocam a palavra, e ela fica
infrutífera.
23
Mas o que foi semeado em boa terra, este é o que ouve a palavra, e a entende; e
dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta.
(S.Mateus 13:1-23)
Esta parábola – e quem melhor que J. C . alguma vez as proferiu
- é uma chamada de atenção muito profunda para
a filosofia de vida propugnada este
ano pelo ilustre Presidente dos Rotários
sr. Bhichai Rattakul .
Reparastes vós onde caiu a
semente?
Reparastes no que lhe
aconteceu?
Reparastes na importância
decisiva do local onde a semente cai?
Mas, talvez mais importante do
que isso é que se o espaço é importante, o tempo não o é menos. A semente não
germina em todo o espaço nem em qualquer tempo.
O povo na sua sabedoria lenta
e acumulada vai mesmo fixando regras para a s sementeiras: “semeia-me no pó e
de mim não tenhas dó”.
Há ainda a ter em
conta que nem toda a semente
serve… por isso ela se escolhe e se guarda em lugar seguro e em condições que
se procuram optimizadas a fim de que mantenham inalteráveis as suas características
de reprodução.
Qual a semente que
vale a pena ser semeada é agora a questão que nos ocupa.
E depois … bastará lançar
a semente à terra se depois se abandona? Há que ter cuidaddos específicos
para com ela sob pena de matarmos à
nascença todo o seu potencial germinativo.
Vai já longa a listagem de
problemas que uma simples parábola nos sugere…
De vez em quando é preciso
“visitar “ as sementes. E renovar alguma que algum acidente de percurso
tenha deteriorado.
Então podemos já concluir
que não basta semear… Tão importante é o onde, quando, como, e acima de
tudo não a abandonar…
Se é verdade que o sol, a
chuva e o vento ajudam eles não são suficientes. Não podemos ficar como a canção
: Minha amora madurinha / Quem foi que te amadurou/ Foi o sol e mais a lua/ A
chuva que ela apanhou…”
A questão complica-se ainda
mais porque o terreno da nossa sementeira é um macaquinho pelado que se
distingue do peludo porque tem menos pêlos e por pouco mais…É preciso
cuidado!
Não só pode ser estéril
como até altamente prejudicial para a nossa semente. Nem todos são Robinson
Crusoé…
Há muitos que sabem melhor
estragar do que aforrar.
Sim … que no final é necessário
recolher o produto da semente. Se não nem valia a pena tê-la lançado
à terra…
Vamos então a saber…
Onde semear?
Já experimentaste por exemplo
facilitar uma manobra na estrada em vez de te fincares na buzina
bem acompanhada por umas vociferações quantas vezes nada recomendáveis?
Já olhaste mesmo para o teu
lado e atentaste no que o teu parceiro precisa?
Já constataste o que é
preciso aqui mesmo no teu núcleo de rotários?
Duvidas que a força de
qualquer associação está na sementeira do contínuo reforço da coesão?
Uma pergunta mais… Deste-te
ao trabalho de ler e meditar na proposta de
Rattakul?
Começa por alindar o teu
quintal e só depois …parte para a floresta…
Tens que semear bom ambiente.
Levar a escolaridade a todas as crianças, contribuir para a erradicação de um
sem número de doenças que vitimam muitos seres iguais a ti, só que noutras
circunstâncias; tens que procurar uma plena integração social, tens que
contribuir para a satisfação das necessidades básicas da humanidade…
Estas são as sementes do
rotarismo. É preciso fazê-las germinar.
Para isso é preciso amor:
semear as sementes do amor , eis o lema que vos foi proposto este ano.
Precisamos então do amor.
Acompanhai-me numa pequena
viagem ao clássico mundo dos gregos.
Eros é o deus do amor. Os
romanos de algum modo diminuíram-no representando-o sempre infante com arco e
flecha e baptizaram-no de Cupido… A semântica perverteu-o.
Mas Eros na sua origem era de
significativo simbolismo.
O mundo dos gregos era um mundo harmónico, proporcional,
equilibrado. Nada havia que se abrisse que não tivesse como e que ser fechado e
vice-versa. Nunca, em definitivo, um valor anulava outro.
Mesmo no campo da moral era
sempre o meio entre os extremos que detinha a perfeição. As dualidades não
tanto de opõem como se complementam o direito faz falta ao esquerdo , como o
baixo ao alto ou a morte à vida e o novo ao velho…. Nenhum faz sentido sem o
outro como seu referente , mais que como seu opositor. Um gera-se no outro e
este no segundo. Até mesmo … não há amor que não tenha por referente o ódio…
Olhai mesmo o que se passa com
os elementos da natureza : eles equilibram-se segundo a justiça e a equidade: o
calor cede lugar ao frio, o húmido ao seco e ao invés, num eterno retorno
sempre renovado mas sempre imutável. Por isso para os gregos não fazia sentido
o infinito se não tem fim não é perfeito. O Universo tinha que ser fechado e
a eternidade da constância só se consegue com a figura circular. O mundo é só
um e necessariamente redondo. Aí o movimento é eterno , mas sempre confinado
aos contornos de um centro…
O redondo é assim a figura
que representa a perfeição…Permita-se e um parêntese: Platão adianta mesmo que a configuração da nossa cabeça tende para o redondo por causa de ser a mais
importante parte do nosso organismo.
Unia-se assim no redondo o
contínuo e o descontínuo, o movimento e o repouso. Conseguia-se a quadratura
do círculo…
A que propósito virá isto,
perguntareis…. A questão é também esta de conseguir circular o quadrado. O
amor é assim mesmo. Como o redondo não pode ter vértices, não pode ter ponta
por onde se lhe pegue o que quer dizer que por onde quer que se lhe pegue se
pega bem. O amor nunca sofre alterações como a eternidade perfeita do redondo.
Amor é amor e ponto final. Circular ao máximo.
Amor é isto. Mesmo que se
discorde, se discuta , se barafuste até se bata, ao fim não precisa de pedir
perdão ou sequer desculpa. Do amor faz parte
a partilha , a compreensão, a dádiva desinteressada, o diálogo. Por
isso é perfeito e como no redondo não estão todas as partes equidistantes do
centro?
Amor é ainda emoção forte e
verdadeira, sentida de verdade. É louco assim mesmo porque no meio dos
acidentes ele busca a redondez, isto é encontra a harmonia no seio da discórdia.
Era este o papel de Eros, o
deus grego do amor: conciliar os contrários e assim ao conseguir a união
proporcionar a fecundidade, a procriação e logo a renovação. Ele era o deus
da afinidade universal. Era a ele que se devia a simpatia entre os seres. Onde
intervem, vence sempre, mesmo que sinta a oposição do seu irmão Anteros…
Como era Eros? Simplesmente o
mais belo dos mortais. Mas não era Narciso. Este consolava-se a mirar-se ao
espelho, aquele não quer que o vejam e proíbe mesmo a sua própria esposa,
Psique, de o ver. Ela promete, mas acaba por, embora com o seu consentimento
relutante por ir visitar a família, e a conselho das suas irmãs, por violar a
promessa e ele de imediato lhe desapareceu da vista ao aperceber-se deste
atrevimento. O amor não é para ter reclame. Amor não é pavoneamento. Pura e
simplesmente , dá e dá-se. Nunca fica à espera de retorno. Por isso nunca lhe
falta nada. Como ao redondo que só é completo se o fim se unir com o princípio
e os dois fizerem um.
Eros foi ainda a força que
ordenou o Caos , que estabeleceu a unificação apaziguadora do universo. Não
fora ele e ainda hoje os elementos do
universo andariam de costas voltadas.
Sua mãe, Afrodite, que o
concebera com Ares era ela também imensamente bela e pasme-se, porque aquela
que havia por ser sua nora, de algum modo, ofuscava a sua beleza pede ao seu próprio
filho que a faça apaixonar-se pelo mais horrendo dos homens. Mas as Moiras não
estavam pelos ajustes e Eros pica-se com a sua própria seta e o amor apaixonado
por Psique levou-o a pedir ao vento Zéfiro que a levasse
brandamente até ao palácio
onde ele se lhe uniria. Da união nasceria O Prazer
ou se quiserdes a Volúpia. È assim mesmo. O amor dá prazer. Se não há
prazer no amor não há entrega, há exigência de troca e portanto há
interesse. Foi-se a perfeição… abriu-se uma brecha na sua perfeição
redonda e agora já tem ponta por onde se lhe pegue. De facto filantropia não
é amor, mecenatismo ainda menos. O amor é anti vedeta. Faz porque gosta de
fazer e é consigo que precisa de ficar bem, nunca vai buscar o centro a outro,
nunca destrói a perfeição da sua perfeita circularidade.
É por isso que o amor inova,
cria, gera, renasce no seu próprio imo e a cada momento se enriquece com o seu
próprio esgotamento. Podia resumidamente concluir que o amor é como o fogo
(controlado) : “quanto mais se
dá mais há.”
É ainda por isso que o amor
nunca é infinitivo mas sempre gerúndio.
O amor nunca é “clone” de si mesmo. Ele reproduz, frutifica mas não
se repete. Gira sempre em torno do seu centro mas o centro é sempre novo e,
logo, o círculo gravitacional exerce de cada vez forças diferenciadas em função
dos campos de força onde ele próprio é elemento. Deste modo ele é movimento,
outro de si, eco que se reconhece mas que não admite imitações. Ele rompe,
altera, e, no seu perfeccionismo acaba
sempre por encontrar o centro de si mesmo exactamente por não precisar de
encontrar fora de si quem lhe garanta a subsistência. Por isso ainda, o amor é
rico.
Quem tem amor de que mais
precisa?
Já agora, que aqui partilho
convosco, algumas singelas formas de pensar
a propósito de um tema tão
genérico e, ao mesmo tempo, tão simples quanto este, permiti que aos conselhos
do vosso líder acrescente algo que
reputo de definitivamente decisivo quando , pelo menos, procuramos dar algo do
que é nosso.
Para além do amor nunca deixeis de lado o rigor, o vigor, o calor e, se souberdes, o humor.
Se não te sentes realizado no
que fazes, deixa-o….vive com intensidade a tua entrega. Ninguém te pediu para
dares. És tu que decides dar. Se fazes frete, se o que fazes é subsidiário de
algum interesse, eu que não sou rotário digo-te: O teu lugar não é aqui”.
Se dás não exijas senão de
ti. Que te importa o que os outros dão e se dão. O centro está em ti. Gravita
em torno de ti mesmo. Mas como o universo equilibra-te nos campos de força,
teus e dos outros. Se te sentes feliz nesse teu constante equilibrares-te então
o teu dinamismo será o aperfeiçoamento da tua energia. Tal como os gregos: é
necessário juntar a DUNAMIS Á ENERGEIA.