
JOVENS E NOVAS GERAÇÕES
Juventude, fase intermédia entre a infância: in-fans = o que não fala, o que "não tem ainda voz activa na matéria" - e a idade adulta: adultus = maduro (particípio passado de adolescere, crescer). Vários caminhos aproximam-nos da compreensão de quem são os adolescentes, os jovens.
1. O CAMINHO DA ETIMOLOGIA
Uma atenção à etimologia ajuda-nos a perceber os sentidos das palavras, iluminando a experiência fundante que esteve no germinar da semântica de um termo. Assim, a puberdade anuncia a saída da infância. O púbere - pubes = pêlo - já sente em si as mudanças do corpo. Curiosamente, a palavra puberdade aproxima-se da palavra república (de rés, coisa - + publica, pubes, pêlo). Jovem faz ecoar o adjectivo aiutans do verbo aiutare, ajudar; jovem é aquele que atingiu a idade de poder ajudar. Etimologia simbólica... Adolescente vem do verbo latino adoleo na sua forma intransitiva incoactiva adolescens. Na raiz está ad+olo ou ad+alô. O termo refere-se a coisas que hão-de ser queimadas em sacrifícios aos deuses. Mais uma vez, a origem é religiosa, cívica de quem já está em situação de oferecer sacrifícios aos deuses.
2. A REFLEXÃO BIOSSOMÁTICA
Estudos recentes mostram que na fisiologia corporal o jovem se aproxima rapidamente do adulto, mas está mais próximo da criança no desenvolvimento cerebral. Faltam-lhe ainda conexões entre os neurónios que afectam a capacidade emocional, certas habilidades físicas e mentais. Tem dificuldades em organizar múltiplas questões ou ideias abstractas. Há um continente na anatomia e no funcionamento do cérebro a ser pesquisado que iluminará muitos comportamentos juvenis que nos parecem anómalos.
3. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES PSICO-ESTRUTURAIS
A psicologia prefere dedicar-se às variações psico-estruturais do adolescente que vive o conflito fundamental de equilibrar dois movimentos antitéticos: ser autónomo e socializar-se para além do reduto familiar As crianças sentem e sofrem problemas. Mas, inconscientemente soa dentro uma voz: quando eu crescer, isso passará. O adolescente e jovem percebe que não pode protelar a solução dos problemas. Urge que eles os assumam. Daí, o risco da fuga...a fuga do sono ou o sonhar acordado, ou a fuga dramática da droga.
4. A JUVENTUDE COMO CONSTRUÇÃO SOCIAL
A juventude vem sendo uma construção social e, por isso, assume concepções e compreensões diferentes, conforme os momentos históricos. Mas, encontramos sempre um traço estrutural recorrente na juventude: a rebeldia. A maneira de afirmá-la pode variar, mas articula-se sempre com a necessária busca de autonomia. Algumas frases sintomáticas: "A nossa juventude (...) é mal educada, zomba da autoridade e não tem nenhuma espécie de respeito pêlos mais velhos. As nossas crianças de hoje (...) não se levantam quando um ancião entra numa sala, respondem aos pais e tagarelam em vez de trabalhar. São simplesmete más" -Sócrates, 470-399 A.C.. "Não tenho nenhuma esperança para o futuro do nosso país, se a juventude de hoje lhe assumir o comando amanhã, porque esta juventude é insuportável, sem compustura, simplesmente terrível"- Hesíodo, 720 A. C.. "Esta juventude está corrompida até ao mais profundo do coração. Os jovens são malfeitores preguiçosos. Não serão nunca como a juventude de antigamente. Os de hoje não serão capazes de manter a nossa cultura". - escrito num jarro de argila nas ruínas de Babilónia: + de 3.000 A.C.
5. JOVENS, MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE
Os termos modernidade e pós-modernidade resumem bem os traços fundamentais do nosso clima cultural. Cada vez mais raros são os jovens que estão à margem deste movimento cultural. Outros entram na modernidade pelas asas da elite; outros pêlos porões da luta pela sobrevivência. Outros, ainda, inserem-se nela ou são excluídos. Outros cansam-se da modernidade e metem-se de corpo inteiro na nascente pós-modernidade da festividade, ou do tédio, ou da experiência mística, ou do compromisso humanitário.
6. O JOVEM DA PÓS-MODERNIDADE GLORIOSA E BACANA
Esta juventude pós-moderna é fruitiva, gozadora. Estabelece o dogma principal do prazer em torno do qual erige os cultos, os ritos, os símbolos. E procura o prazer a curto prazo, imediato, presente. Revive o carpe diem de Horácio - "goza o presente". Faz seu o dístico latino evocado por Umberto Eco no conhecido romance "O nome da Rosa": °Sfaf rosa pristina nomine / nomina nuda tenemus" [Está a rosa antiga só nominalmente / o que temos são nomes vazios0].
Diferentemente dos jovens modernos, o jovem da pós-modernidade não se satisfaz com as actividades produtivas, mercantis, pragmaticamente úteis, funcionais. Critica-as a partir do grau da auto-satisfação. O tempo das leituras é substituído pelas horas de ginásio. A juventude pós-moderna cultiva sobremaneira a beleza. A estetização alcançou o conjunto da cultura, substituindo em muitos casos a própria ética. É o reinado do narcisismo. O novo santuário é a vida privada, cercada pela indiferença ou alheamento em relação às questões da vida colectiva.
O grande desafio â nossa actuação educativa é despertar nestes jovens a consciência social e mostrar-lhes como o compromisso tem uma dimensão de prazer. É possível desenvolver uma sadia pedagogia do prazer. A pós-modernidade é a negação do tempo por causa da concentração no presente. Este presentismo consome as energias criativas do jovem pós-modemo. Perde-se a noção de passado e de futuro. Não existe história. Há que pensar numa pedagogia do tempo: saber pensar e construir a vida, as realidades numa dimensão dilatada e estendida no tempo. Só assim o jovem se forma para o compromisso, para a felicidade. A pedagogia do tempo compreende que a duração pertence fundamentalmente à construção e à disciplina da vida afectiva. É um facto essencial. A afectividade desenvolve-se no tempo.
7. O JOVEM ENFADADO, CÉPTICO, INSATISFEITO, FRAGMENTADO
Uma vida de prazer sem quase responsabilidades parece, à primeira vista, realizar o sonho rosado de uma vida jovem. Mas esse é o lado colorido da questão. Por trás há uma degradação existencial que lhe reduz a capacidade de maravilhar-se, de entusiasmar-se, de distinguir o importante do que não é, de gozar intensamente, de realizar experiências que revelem sentido novo. É uma vida roída pela melancolia suave e desencantada. Quer sair dessa situação. Mas não tem estrutura suficiente para uma decisão corajosa, forte, enérgica, que o arranque dessa situação de melancolia: "Moro no número sete, rua da Melancolia / Quero mudar-me há anos para o bairro da alegria/Mas sempre que tento, já tinha partido a carreira/E na escadaria me sento, a assobiara melodia" (Joaquín Sabina).
De novo, encontramo-nos com a capacidade crítica desse jovem pós-modemo, mas ao mesmo tempo, com a dificuldade que ele tem de avançar na raiz da crítica e, sobretudo, de aventurar uma saída. Melancolia e acomodação alimentam-se mutuamente. Quanto mais melancolia, mais 'acomodação. Quanto mais acomodação, maior a melancolia. Entra-se num círculo implacável. Para a maioria dos jovens nessa situação a saída do circulo dependerá de uma experiência mais forte do que o círculo, de uma presença que lhes desperte aquele desejo de alegria que nele está latente.
8. O JOVEM DA REALIDADE VIRTUAL
Cresce o número de jovens que diminuem as relações reais em prol das relações ditas virtuais. Substituem o face-a-face pelo encontro no monitor do computador. Conectam-se com o servidor e navegam pelo mundo, estabelecendo contactos e relações por imagens. Ainda nos escapam os efeitos desta cibercultura sobre a geração jovem. Fala-se da cultura do simulacro em que as imagens do monitor apagam os traços da diferença entre o real e o aparente, entre verdade e simulação, entre certeza e opinião. Mas esta é uma cultura e não a cultura, nem a única cultura. Toma-se necessária uma leitura crítica diante da sociedade do simulacro e do espectáculo. Tal não significa, porém, qualquer diabolização da tecnologia, da informática e da telemática. A sociedade actua! é impensável sem os avanços tecnológicos. A questão não está tanto no uso da técnica, mas sim no pensar e assumir a realidade, o convívio com as pessoas, a própria subjectividade, a ligação com o Transcendente a partir de e numa compreensão estritamente tecnológica. Impõe-se aqui todo um trabalho educativo e de discernimento, em que se distinguem a condição de meio da técnica e a dimensão de fim dos valores autónomos. Valores que se fundam na condição humana e que são constantes antropológicas que superam os tempos e os espaços.
A
juventude é um tempo de educação,
na própria raiz desta
palavra (= tirar de). A educação constrói-se no
duplo movimento de oferta e de descoberta. Oferece-se de fora, mas
insistindo sempre na riqueza já
existente anteriormente no educando. Toca ao educador, como maieuta
(parteiro) fazer nascer esse ser novo
que dorme no interior de cada um.
Pé. António Janela